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Black Lives Matter: vamos falar sobre isso com nossos filhos?
 

Por Luciana Savioli

Desde a morte de George Floyd - em Minesota, no dia 25 de maio – e o início do movimento Black Lives Matter no Estados Unidos e no mundo todo, pais, mães e professores têm encontrado dificuldade em como abordar um tema tão delicado com as crianças e responder às questões muitas vezes difíceis de serem explicadas até mesmo a um adulto: “Por que mataram ele? O que ele fez? Não podiam só prendê-lo? Por que as pessoas estão gritando bravas na rua? O que elas querem? O que quer dizer Black Lives Matter?”. Todas essas perguntas fazem-nos refletir e nos dão chance para iniciar uma boa discussão sobre igualdade de direitos raciais dentro de casa, com nossos filhos. Afinal, a mudança começa na educação.



As respostas para as perguntas das crianças não são fáceis, nem únicas e devem ser talhadas de acordo com a idade e compreensão de cada criança. Além disso, devemos nos instruir – afinal, esse é um assunto complicado até mesmo para nós, adultos. Mas, o importante, é não fugir da conversa. Segundo Howard Stevenson, professor de Educação Urbana da  University of Pennsylvania em artigo publicado no Huffpost, “quanto antes tivermos essas conversas, melhor”. Isso porque, ao contrário do que alguns pais e educadores  acreditam, as crianças estão muitos mais atentas do que imaginamos – e ficar sem explicação pode confundir ainda mais os fatos que, por si só, já são difíceis de serem entendidos.

Hilceia Patriarca, psicanalista e autora de “A subjetividade da psique preta: como uma herança da ancestralidade de sofrimento, ódio e culpa se inter-relaciona com a estrutura sadomasoquista”, reforça que caminho está no diálogo – sobretudo dentro das família negras. “Pais pretos devem aproximar a criança de conteúdos relacionados à história real dos antepassados, mas também de pessoas negras que possam inspirá-las, qualquer que seja o setor de atuação. Fui criada numa escola tradicional de Salvador e eu e minha irmã éramos as únicas negras do colégio. Sofri preconceito, sim, pelas freiras da escola que eram racistas na forma de tratar. Não éramos escolhidas como destaque para nada. A solução foi embranquecer para não sucumbir, para poder fazer parte.”

Um guia da UNICEF

No dia 4 de junho, diante de tantas discussões sobre os temas antirracistas incitados pelo movimento Black Lives Matter, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) Brasil reativou a campanha “Por uma infância sem racismo”. Baseada na ideia de ação em rede, a iniciativa reúne 10 ações ou comportamentos que cada pessoa pode adotar para assegurar o respeito e a igualdade étnico e racial desde os primeiros anos de vida.

Confira as 10 maneiras de contribuir para uma infância sem racismo – e coloque-as em prática na sua casa:

Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.

Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize!

Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.

Denuncie! Em todos os casos de discriminação, busque defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.

Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnica e racial.

Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.